Picture of Pr. Leoni Vial

Pr. Leoni Vial

As Sete Palavras de Jesus na Cruz: Um Reflexo do Amor e da Redençã

 As Sete Palavras da Cruz e a Mensagem para a Igreja de Hoje


Graça e paz, amados irmãos em Cristo. É com a solenidade e reverência que o tema exige que nos debruçamos sobre as profundas e eternas palavras de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, proferidas nos momentos finais de Sua vida terrena na cruz do Calvário. Este é um tema central à fé cristã, pois a cruz não é meramente um símbolo de dor, mas o epicentro da redenção, o lugar onde a justiça de Deus e a Sua misericórdia se encontram no abraço mais surpreendente da história. As sete frases, ou as “Palavras da Cruz”, registradas nos Evangelhos, não são meras anotações históricas, mas um testamento teológico e pastoral que continua a ecoar com poder e relevância para a Igreja em todos os tempos.

Neste artigo, buscaremos, com o rigor da exegese bíblica e o coração do teólogo pastoral, desvendar cada uma dessas palavras, não como fragmentos isolados, mas como um todo coerente que revela o caráter de Cristo, a natureza da nossa salvação e a nossa vocação como Igreja. À luz da nossa herança Reformada, que nos ensina a olhar para as Escrituras como a nossa única regra de fé e prática (Sola Scriptura), examinaremos como estas palavras fundamentam a nossa doutrina, nutrem a nossa piedade e moldam a nossa missão.


A Primeira Palavra: Perdão do Calvário – “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lucas 23:34)

A primeira palavra de Cristo na cruz nos choca e nos confronta. Pendurado entre o céu e a terra, em meio à dor insuportável e à zombadora crueldade de Seus algozes, a Sua primeira oração não é por alívio, mas por perdão. Esta frase resume a essência do Evangelho e o coração do próprio Deus. É uma declaração de graça radical e unilateral. A palavra grega para “perdoa” aqui é aphēmi (), que significa “enviar embora, liberar, cancelar uma dívida”. Cristo, como nosso grande Sumo Sacerdote, oferece o sacrifício perfeito por nosso pecado e, ao mesmo tempo, intercede por nós, Seus inimigos.

Esta oração revela a profundidade da depravação humana, pois os homens, em sua cegueira espiritual, crucificaram o Filho de Deus, a própria vida. Eles “não sabiam o que faziam”. A ignorância, porém, não anula a culpa, mas nos aponta para a necessidade de uma revelação e de uma intervenção divina. A oração de Cristo é a resposta de Deus à nossa condição caída: não condenação imediata, mas uma oferta de graça baseada na obra expiatória que estava sendo consumada.

Para a Igreja de hoje, esta palavra é um lembrete do nosso chamado. Somos o corpo daquele que orou por Seus inimigos. A Igreja não pode ser um clube de justos, mas uma comunidade de pecadores perdoados que, por sua vez, são chamados a perdoar. Diante das perseguições, das incompreensões e das injustiças, a nossa resposta deve ser a do nosso Senhor: interceder e perdoar. Isso não significa negligenciar a justiça, mas refletir um caráter que não retribui mal com mal, mas vence o mal com o bem. Como nos ensina o apóstolo Paulo, o amor, que é a marca de Cristo, “não se ressente do mal” (1 Coríntios 13:5).


A Segunda Palavra: A Promessa ao Ladrão – “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.” (Lucas 23:43)

A segunda palavra de Cristo é a do conforto e da promessa. Ao lado d’Ele, um dos malfeitores, tocado pela graça, reconhece a Sua realeza e a Sua inocência. Ele não faz um pedido por salvação baseada em obras, mas um humilde clamor por misericórdia: “Lembra-te de mim quando entrares no teu reino”. Esta fé, nascida da humilhação, não da prosperidade, é o protótipo da Sola Fide, a salvação somente pela fé.

A resposta de Jesus é imediata e absoluta. A palavra “paraíso” (, paradeisos) evoca a imagem do Jardim do Éden, o lugar de comunhão perfeita com Deus. A promessa de Cristo não é de um futuro distante, mas de um encontro “hoje”. Esta frase anula qualquer ideia de um “purgatório” ou de um estado intermediário de purificação após a morte para os crentes. Aquele que está unido a Cristo pela fé, no momento da sua morte, entra na Sua presença e no Seu descanso. A obra de Cristo na cruz é tão completa e suficiente que a salvação é instantânea.

A mensagem para a Igreja de hoje é poderosa: a salvação não depende de rituais, de uma vida de retidão perfeita (o ladrão não teve tempo para isso), mas da fé no sacrifício de Cristo. A salvação é Sola Gratia, somente pela graça. Não há barreiras sociais, morais ou intelectuais para a graça. O Evangelho é para todos, e é o nosso privilégio e dever levar esta mensagem de esperança aos mais marginalizados da sociedade, aqueles que, como o ladrão, podem ser salvos no último suspiro de suas vidas.


A Terceira Palavra: O Amor Familiar e a Comunidade – “Mulher, eis aí teu filho!” … “Eis aí tua mãe!” (João 19:26-27)

A terceira palavra é um ato de profundo amor filial e um ensinamento sobre a nova comunidade que a cruz cria. Naquele momento de agonia, Jesus não esquece de Sua mãe, Maria, nem do Seu discípulo amado, João. Ele os entrega um ao outro, formando um novo laço familiar que transcendia os laços de sangue.

Esta cena é rica em significado. Primeiramente, mostra a humanidade de Cristo e o Seu cuidado pessoal e pastoral. Ele, o Verbo encarnado, era um filho obediente e amoroso. Em segundo lugar, e mais profundamente, aponta para a criação de uma nova família, a Igreja. A comunidade dos crentes não é baseada em etnia, status social ou laços biológicos, mas na união com Cristo. A cruz, ao nos reconciliar com Deus, também nos reconcilia uns com os outros, tornando-nos irmãos e irmãs em Cristo. Como escreve o apóstolo Paulo, em Cristo não há mais judeu nem grego, escravo nem livre (Gálatas 3:28).

Para a Igreja de hoje, esta palavra nos lembra da nossa responsabilidade mútua. A comunidade da fé não é opcional; é a manifestação da obra da cruz. Somos chamados a cuidar uns dos outros, a sustentar os fracos, a acolher os solitários e a criar um ambiente de amor e cuidado que reflita o amor de Cristo. A Igreja deve ser um lar, um refúgio seguro onde os irmãos se sentem parte de uma família, assim como João acolheu Maria em sua casa.


A Quarta Palavra: A Dor da Expiação – “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27:46; Marcos 15:34)

Chegamos agora ao coração teológico da cruz. Esta é a palavra mais dolorosa, misteriosa e crucial de todas. A frase, uma citação do Salmo 22, não é um grito de descrença, mas um clamor de angústia. Naquele momento, sobre o Filho perfeito, foi lançada a totalidade do pecado do mundo. O apóstolo Paulo afirma que “Aquele que não conheceu pecado, Ele o fez pecado por nós; para que, n’Ele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21). A comunhão eterna entre o Pai e o Filho foi, por um momento, quebrada pela carga do nosso pecado. A escuridão que cobriu a terra não foi apenas um fenômeno físico, mas a manifestação do juízo de Deus sendo derramado sobre o Seu Filho.

A palavra grega para “desamparaste” (, **egkataleipō$) carrega a ideia de ser deixado na mão, abandonado. A expiação de Cristo exigia essa separação. A Sua morte não foi apenas uma tragédia humana, mas um sacrifício penal substitutivo. Ele sofreu a justa ira de Deus que deveria recair sobre nós. Este é o fundamento da satisfação penal que a teologia Reformada sustenta. Cristo pagou integralmente o preço da nossa culpa, satisfazendo a justiça perfeita de Deus.

A Igreja de hoje, em um mundo que tenta reduzir a cruz a um símbolo de amor universal e “sentimental”, precisa redescobrir a profundidade teológica desta palavra. A cruz é a prova da gravidade do pecado e da santidade intransigente de Deus. Sem a dor da separação e o sacrifício de Cristo, não há salvação. A cruz é a única resposta para o problema do pecado. A nossa pregação deve ser centrada nesta verdade: que o Deus que nos ama é o Deus que é santo, e que a salvação é a Sua obra soberana para reconciliar-nos consigo mesmo, um feito que custou o abandono temporário de Seu Filho.


A Quinta Palavra: A Humanidade Sedenta – “Tenho sede.” (João 19:28)

Após o clímax da expiação, Jesus expressa uma necessidade profundamente humana. A Sua declaração de sede não é apenas uma manifestação da dor física, mas também tem uma dimensão teológica. Ela cumpre as Escrituras (Salmo 69:21). Mais do que isso, simboliza a Sua identificação completa com a nossa humanidade. O Verbo, que é a fonte da água viva (João 4:14), que sacia a sede espiritual, experimenta a sede humana em sua forma mais extrema.

Esta palavra nos lembra que o nosso Salvador é totalmente Deus e totalmente homem. Ele não é um fantasma ou um espírito, mas Alguém que experimentou todas as fraquezas da nossa carne, exceto o pecado (Hebreus 4:15). Ele, que criou as águas e os oceanos, sente a secura na garganta. Esta realidade da encarnação é a base da nossa fé.

Para a Igreja de hoje, esta palavra nos ensina a não fugir da nossa humanidade. Servimos a um Deus que se fez carne e habitou entre nós. Não devemos temer a vulnerabilidade, a fraqueza ou a dor, pois o nosso Senhor as experimentou por nós. A nossa missão não é apenas espiritual, mas também física e social, buscando suprir as necessidades dos que têm sede, fome e estão nus. É um chamado a uma fé encarnada, que se manifesta em atos de amor e misericórdia concretos, lembrando-nos que o nosso Salvador também teve sede.


A Sexta Palavra: A Consumação da Redenção – “Está consumado!” (João 19:30)

Esta é a palavra de vitória, o grito de triunfo do Cordeiro de Deus. A palavra grega traduzida como “está consumado” é tetelestai (). Este termo, no grego do primeiro século, era usado comumente para indicar que uma dívida havia sido paga por completo. Era a palavra que um credor escrevia em um documento de dívida para indicar que ela estava totalmente quitada.

Quando Jesus bradou tetelestai, Ele estava declarando ao universo que a obra de redenção, iniciada no Jardim do Éden e prometida por toda a história da aliança, havia sido concluída. O sacrifício perfeito foi oferecido. A exigência da lei foi satisfeita. A dívida do nosso pecado foi paga por completo. Não há nada que se possa acrescentar a esta obra. Ela é suficiente e perfeita. A nossa salvação é Solus Christus, somente em Cristo.

A Igreja de hoje deve firmar-se nesta verdade inabalável. A nossa salvação não é um processo incompleto que depende de nossas obras de justiça para ser consumado. É um presente da graça de Deus, recebido pela fé. Precisamos resistir às heresias que tentam adicionar rituais, méritos ou sacrifícios à obra de Cristo. A cruz é suficiente. A nossa obra é de gratidão, de serviço e de santificação, mas não de justificação. A certeza da nossa salvação está na declaração de Cristo: “Está consumado!”. Esta é a nossa base segura e o fundamento da nossa alegria.


A Sétima Palavra: A Entrega Final – “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lucas 23:46)

A palavra final de Cristo na cruz é um ato de confiança absoluta. Ele Se entrega voluntariamente à morte, confiando no Pai. Esta frase demonstra que Ele tinha poder para dar a Sua vida e poder para retomá-la (João 10:18). A Sua morte não foi um evento passivo, mas um ato ativo e voluntário de obediência ao Pai. Ele não foi vencido pela morte, mas a venceu.

Esta palavra ressoa com o Salmo 31:5, o que mostra que Jesus viveu e morreu de acordo com as Escrituras, cumprindo todas as profecias a respeito d’Ele. A Sua vida e a Sua morte são o ápice do plano de redenção de Deus. A entrega de Seu espírito ao Pai marca a conclusão do Seu sofrimento e o início de Sua glorificação.

Para a Igreja de hoje, esta palavra é um modelo para a nossa vida e para a nossa morte. Somos chamados a viver e a morrer com uma confiança inabalável na soberania de Deus. A nossa vida deve ser uma entrega constante ao Pai, e a nossa morte não deve ser motivo de desespero, mas a entrada na Sua presença. A nossa fé nos dá a certeza de que, ao morrermos, estamos “ausentes do corpo e presentes com o Senhor” (2 Coríntios 5:8).


Conclusão: A Mensagem da Cruz para a Igreja de Hoje

As sete palavras da cruz não são relíquias históricas, mas a espinha dorsal de nossa teologia e a fonte de nossa espiritualidade. A sua mensagem para a Igreja de hoje é multifacetada e essencial.

Primeiro, a cruz nos chama a uma vida de perdão radical e de amor pelos nossos inimigos, como Cristo nos amou enquanto éramos Seus inimigos.

Segundo, ela nos lembra que a salvação é somente pela graça, através da fé, um dom imerecido que está disponível a todos, sem distinção de mérito.

Terceiro, a cruz nos exorta a construir uma comunidade de amor e cuidado mútuo, onde a nossa identidade como filhos de Deus em Cristo é mais forte do que quaisquer laços terrenos.

Quarto, a cruz nos confronta com a santidade de Deus e a gravidade do nosso pecado, revelando que a redenção foi um sacrifício penal substitutivo que satisfaz a justiça divina.

Quinto, a cruz nos ensina a abraçar a nossa humanidade e a servir o mundo com compaixão e misericórdia, seguindo o exemplo do nosso Salvador encarnado.

Sexto, a cruz nos dá a certeza de que a obra de Cristo está completa e é suficiente, liberando-nos de qualquer tentativa de justificação por obras e nos enraizando na verdade de que a nossa salvação está segura somente n’Ele.

Finalmente, a cruz nos convida a viver e a morrer com uma confiança inabalável na soberania do Pai, entregando-nos completamente à Sua vontade e ao Seu cuidado.

Em última análise, as sete palavras da cruz nos chamam a uma fé que não é superficial, mas teologicamente profunda, pastoralmente sensível e biblicamente fundamentada. A glória da cruz não está na tragédia, mas no triunfo. Nela, Deus manifestou a Sua sabedoria e o Seu poder (1 Coríntios 1:18, 23-24). Que a nossa pregação e a nossa vida como Igreja reflitam sempre a poderosa e salvadora mensagem do Calvário, para a glória de Deus somente (Soli Deo Gloria).

Comentários
Rolar para cima